terça-feira, 13 de setembro de 2016

Português

Quero escrever, mas o que sai é uma amalgama de coisas desconexas e sem sentido.
Preciso de tempo para escrever, para remoer nas palavras, deitar-me e rebolar com elas, até consegui pô-las em sentido, a marcha ao meu toque.

Acho que já fui melhor do que sou hoje a escrever. Tenho medo que, do tanto que falo inglês, que o português se esvaia de mim sem dar por isso. Esse pensamento atormenta-me, a minha língua, a língua de Camões, do Eça, de Pessoa, a minha língua que tanta falta me faz, falha-me agora constantemente, não em pensamentos (nesses não) mas nas palavras escritas.
Leio e não gosto, apago, escrevo e deito fora. Olho para o relógio e das 1000 linhas que escrevi não aproveito metade, não quero. Ou sinto o que leio quando escrevo o que sinto, ou então não quero, repudio tudo, carrego guardar e penso que logo volto.

Olho para trás e passei meses sem escrever uma linha.

Já escrevi muito melhor do que hoje, pela prática, pelos livros (até esses agora leio em inglês), pelas noticias, pelas conversas. E quanto mais me tentam enfiar o holandês a força mais sinto o meu corpo a rejeitar qualquer outra língua que não seja o português. Não quero, foda-se, não preciso, deixem-me em paz. E se tentar explicar porque é que tem dias em que só o português faz sentido ninguém vai perceber, eu própria não percebo. A genialidade de Camões, as descrições do Eça, as loucuras de Pessoa, não vale a pena tentar explicar porque agora vivo num mundo em que as pessoas não leram o que eu li, não ouviram o que eu cresci a ouvir, não conhecem os sítios, não sabem as piadas.
A diferença é boa, mas cansa. Preciso de quem me entenda, de não ter de explicar em inglês de maneira simplificada, de não ter de dizer todas as palavras...

1 comentário:

  1. Adoro-te e percebo-te na perfeição. Nada se sente como em português. Nada.

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